Política
‘Enquanto tiver gente morando na rua, Brasil não será independente’: habitação é pauta do ‘Grito dos Excluídos’ em BH

Tradicional manifestação reuniu movimentos sociais, sindicais, religiosos e estudantis na Lagoinha; lema deste ano é ‘Você tem fome e sede de quê?’
As demandas da população em situação de rua de Belo Horizonte são as principais bandeiras encampadas pela edição de 2023 do tradicional “Grito dos Excluídos”, nesta quinta-feira (7). Sob o lema “Você tem fome e sede de quê?”, o ato reuniu centenas de manifestantes na Praça do Centenário, no Bairro Lagoinha, na Região Noroeste da cidade. Com informações de Itatiaia.
A atividade contou com a participação de entidades ligadas à Igreja Católica, movimentos sociais, sindicais e estudantis.
Presente ao “Grito dos Excluídos”, o coordenador do Movimento Nacional da População em Situação de Rua em Minas Gerais, Samuel Rodrigues disse que a pandemia ajudou a aumentar o número de pessoas em situação de rua.
“Produzimos um documento e, nele, estamos dizendo que, enquanto tiver gente morando na rua, esta pátria não será independente. Não é justo. Não podemos permitir isso”, afirmou.
Ao listar os problemas enfrentados pelos sem-teto, Rodrigues fez menção à dificuldade no acesso a fontes potáveis de água.
“Você está no Centro da cidade, mas não tem direito à água. Onde a água é mais canalizada e tratada, a essa população o direito à água é negado. Ela (a população de rua) não tem banheiro público, espaço para cuidado com seus pertences e animais e não tem água potável para consumo, uma questão humana”, protestou.
Frederico Santana, coordenador de políticas sociais da Arquidiocese de Belo Horizonte citou “arte”, “cultura”, “mística” e “espiritualidade”. Segundo ele, o “Grito”, que acontece há 29 anos, ocorre independentemente da orientação política dos governantes vigentes.
“Ainda não solucionamos os problemas políticos e sociais que a gente tem. Então, estamos, todos os anos, denunciando essas questões sociais”, pontuou.
Entidades sindicais utilizaram a manifestação para criticar o desejo do governador Romeu Zema (Novo) de viabilizar a privatização de estatais como a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa).
‘Território significativo’
Depois da concentração na praça, os manifestantes vão seguir em marcha rumo à Ocupação Pátria Livre, instalada há seis anos na Pedreira Prado Lopes, também na região da Lagoinha.
O bairro, aliás, é marcado pelo aumento no número de pessoas em situação de rua — o que, segundo lideranças, aumenta o simbolismo do ponto de partida do “Grito dos Excluídos”.
“Esse território é muito significativo Aqui, há uma grande concentração de pessoas (em situação de rua), historicamente. Neste momento, muito mais. E vivendo em situações muito degradantes, inclusive”, apontou Claudenice Rodrigues Lopes, coordenadora da Pastoral de Rua da Arquidiocese de BH.
Samuel Rodrigues aproveitou o ato para cobrar intervenção, do poder Judiciário, na busca pelo fim das mortes de cidadãos que vivem em locais públicos.
“No Centro da cidade tem muita comida para essa população de rua, mas eles têm outra fome e outra sede. Sede de moradia, fome de trabalho e sede de justiça social”, salientou.
Segundo a deputada federal Duda Salabert (PDT-MG), que engrossou a passeata, o poder público tem caminhos necessários para atenuar os problemas de moradia.
“Em Belo Horizonte, para cada pessoa em situação de rua, há 20 imóveis vazios ou abandonados. O que falta, de fato, é coragem do poder Executivo para colocar em prática o que é garantido por lei, que é o IPTU progressivo e a transformação desses espaços vazios em moradias populares no Centro”, reivindicou.
A Itatiaia procurou a Prefeitura de BH para comentar a posição da pedetista. Segundo o poder Executivo municipal, ainda não há um levantamento a respeito do número de prédios vazios na capital.
“Nesse sentido, reforçando seu compromisso com a preservação do Centro como espaço de referência para a população de BH, a prefeitura vem buscando avançar na implementação dos instrumentos voltados para promover a utilização desses imóveis, associada à melhoria das condições de ocupação do solo e conversão das edificações a novos usos ou atividades.
A identificação dos imóveis ociosos é de verificação difícil porque não basta apenas uma vistoria sendo necessário um cruzamento com dados da concessionária de energia elétrica.
Vale reforçar que a Prefeitura segue nos esforços junto às concessionárias e outras frentes para tornar possível o monitoramento de prédios abandonados na cidade”, lê-se em trecho da nota encaminhada à reportagem.