Saúde
Tabu: por que Minas não disponibiliza dados de suicídios entre policiais?

O estado é o único do país que não disponibilizou dados sobre suicídio de policiais o 17º Anuário Brasileiro de Segurança Pública
Os casos de suicídio entre policiais ainda continuam como tabu nas polícias Civil e Militar de Minas Gerais. O estudo, inclusive, é o único do país que não disponibilizou informações sobre o número de casos ao 17º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, estudo que monitora a evolução dos índices de segurança pública no país. A falta de informações, segundo o levantamento, compromete as ações de segurança pública no país e agrava ainda mais a situação daqueles policiais que precisam de ajuda e não sabem o que fazer. Com informações de O Tempo.
A Polícia Militar justifica que não divulga os dados para preservar as vítima e as famílias, e argumenta que “os dados de autoextermínio, as informações estão reservadas dentro do ordenamento jurídico vigente”. O argumento é o mesmo para a Polícia Civil. No entanto, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, as condutas das instituições preocupam, sendo necessário orientar as organizações a terem uma “noção mais ampla do contexto da vitimização de policiais e que não se restrinja o olhar apenas aos policiais que morrem, mas aos que adoecem também”.
O presidente do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil do Estado de Minas Gerais (Sindpol/MG), Wemerson Oliveira, acredita que a omissão de dados passa por uma negligência do Estado e também por uma questão cultural, que idealiza o policial como um ‘herói’. “É uma imagem que é idealizada pela sociedade e pela própria instituição. Dizem que o policial tem vocação. Mas o que é isso? É saber trabalhar em péssimas condições e dar conta do serviço? A gente precisa lembrar que o policial é um trabalhador como outros, ele vende a sua mão de obra”, detalha.
Ele acrescenta que a omissão desses dados compromete a segurança pública. “Isso é uma forma de esconder o adoecimento que existe nas instituições”, argumenta. Para ele, apesar das restrições necessárias ao repassar os dados, a fim de evitar estimular novos casos e preservar informações sobre os servidores, as polícias deveriam divulgar esse levantamento para auxiliar no desenvolvimento de políticas públicas. “Esses dados são importantes para um diagnóstico e assim entender os motivos”, acrescenta.
O especialista em segurança pública Arnaldo Conde pondera, e afirma que a não divulgação dos dados passa por uma diretriz adotada pelas instituições. “Quando mais você difundir as informações, mais recursos você vai ter para tratar dos temas. O que a gente percebe é que esse é um assunto ainda muito restrito”, explica. Conde destaca, porém, que apesar de não informar sobre os casos, as instituições desenvolvem ações para prevenir episódios de suicídio entre policiais militares e civis. “Elas adotam estratégias de apoio. Na Polícia Militar tem um serviço objetivo, tanto na assistência social e psicológica para tratar desse tema”, completa.
Por meio de nota, o Governo de Minas afirmou que “acompanha de perto os dados sobre saúde mental e eventuais casos de suicídio” das Forças de Segurança do Estado. O estado justifica, porém, que os dados estatísticos não são divulgados com o intuito “preservar a família das vítimas, garantir o direito à privacidade e evitar análises descontextualizadas sobre casos individuais que possuem motivações multifatoriais”. O Governo de Minas garantiu ainda que realiza uma série de ações para acompanhar os servidores. A nota pode ser lida na íntegra ao término da matéria.
Dados
Suicídio de policiais militares por estado em 2022
- São Paulo – 16
- Pernambuco – 07
- Bahia – 06
- Paraná – 05
- Rio de Janeiro – 05
- Rio Grande do Sul – 05
- Goiás – 04
- Ceará – 03
- Distrito Federal – 03
- Espírito Santo – 03
- Sergipe – 03
- Maranhão – 02
- Mato Grosso – 02
- Mato Grosso do Sul – 02
- Amazonas – 01
- Rio Grande do Norte – 01
- Santa Catarina – 01
- Demais estados – disseram não ter tido casos
- Minas Gerais – não informou
Suicídio de policiais civis por estado em 2022
- São Paulo – 03
- Santa Catarina – 02
- Bahia – 01
- Ceará – 01
- Distrito Federal – 01
- Mato Grosso do Sul – 02
- Paraíba – 01
- Rio de Janeiro – 01
- Rio Grande do Sul – 01
- Demais estados – disseram não ter tido casos
- Minas Gerais – não informou
Fonte: 17º Anuário Brasileiro de Segurança Pública
Veja a nota do Governo de Minas
O Governo de Minas, por meio das Forças de Segurança do Estado, acompanha de perto os dados sobre saúde mental e eventuais casos de suicídio nas respectivas tropas que atuam em Minas Gerais. Contudo, dados estatísticos sobre o tema não são objeto de divulgação, com o intuito preservar a família das vítimas, garantir o direito à privacidade e evitar análises descontextualizadas sobre casos individuais que possuem motivações multifatoriais.
Cabe salientar que são realizadas diversas iniciativas com os servidores para prevenção de problemas no campo da saúde mental.
A Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) realiza, anualmente, o Programa de Saúde Ocupacional do Policial Militar (PSOPM), que tem como objetivo a promoção e cuidado com a saúde integral dos policiais militares da ativa, procurando prevenir, identificar e controlar os riscos relacionados à atividade policial militar, através da realização de avaliação de saúde nas áreas médica, odontológica e psicológica.
Além do acompanhamento e apoio de psicólogos lotados nas Unidades de Atenção Integral à Saúde (UAPS), a instituição também possui na sua rede orgânica a Clínica de Psiquiatria (CLIPS) em Belo Horizonte, que acolhe e atende aos militares e seus familiares em caráter de urgência ou ambulatorialmente. A PMMG conta ainda, para atendimento psicológico e psiquiátrico, com o suporte de uma rede credenciada com serviços disponíveis em todo o estado.
A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), por sua vez, disponibiliza o Centro de Psicologia do Hospital da Polícia Civil (HPC), que oferece atendimento psicológico clínico, por meio de sessões presenciais e também por teleconsulta, para servidores da ativa, aposentados e dependentes, da capital e do interior do estado.
Ademais, o HPC dispõe doplantão psicológico, que consiste em um dispositivo de escuta especializada, sem necessidade de agendamento, serviço amplamente divulgado aos servidores.