Pandemia
Pandemia eleva tempo nas redes sociais de 62% dos mineiros, revela DATATEMPO

Em novembro do ano passado, Ellen Nascimento, 38, resolveu tomar uma atitude ao constatar que estava usando o Instagram de forma exagerada. Cliques e horas e horas olhando para as telas do celular ou do computador ocupavam boa parte do dia da publicitária. “Aquilo não estava me fazendo bem. Eu estava ficando triste e abalada”, ela comenta. “Eu via as pessoas muito felizes e, muito ansiosa, eu não estava feliz, ou via as pessoas com muita raiva pelo que está acontecendo”, completa.
Foi naquele mês, ao voltar de uma viagem de férias, que Ellen decidiu desativar sua conta no Instagram: “Eu também fiquei com medo dos julgamentos pelo pouco que eu estava abrindo, pois, de vez em quando, me encontrava com amigos em casa, peguei avião e fui para a praia, além da ansiedade de ver a felicidade alheia e me perguntar: ‘Quando vai chegar minha hora de ser feliz de novo?’”.
Se fosse uma das entrevistadas da pesquisa DATATEMPO realizada no fim de setembro e divulgada na semana passada com vários recortes, entre eles os hábitos dos mineiros na internet e nas redes sociais, Ellen se encaixaria nos 19,5% das pessoas (veja detalhes no infográfico) que classificaram como negativo o impacto das redes sociais no seu bem-estar.
Após seis meses de detox e do que ela chama de “reeducação do uso das redes sociais”, Ellen voltou ao Instagram em maio deste ano. O período fora das redes, que a publicitária considera benéfico e proveitoso, serviu para que ela passasse a se dedicar mais à leitura e às séries na TV. “Esse tempo fora do Instagram foi sensacional. Hoje, tenho um controle muito maior, não fico naquela vontade louca de querer saber o que está acontecendo na vida alheia”, pontua.
Para fazer um raio-x do uso da internet pelos mineiros, a pesquisa DATATEMPO norteou as perguntas em três eixos, além do impacto das redes sociais no bem-estar dos entrevistados: motivações do uso da internet, tempo gasto nas redes sociais por dia e utilização das redes na pandemia. Sobre o último item, o levantamento mostra que a maioria (61,9%) afirma que o tempo gasto nas redes socais por dia aumentou no período, como também aconteceu com Ellen Nascimento: “Eu já era uma usuária compulsiva, mas, durante a pandemia, como eu estava em casa sozinha, sem nenhum tipo de evento presencial, o consumo aumentou bastante”.
Tendência
Segundo o doutor em psicologia social e professor Claudio Paixão, da Escola de Ciência da Informação da UFMG, se o aumento do uso das redes sociais será uma realidade também após o período pandêmico só o futuro poderá dizer, mas a tendência é que isso aconteça, sobretudo com a popularização de plataformas de encontros e reuniões online e a utilização do WhatsApp como ferramenta de trabalho.
“O mundo migrou para o virtual na pandemia. Claro que há uma saturação, mas a tendência é que isso permaneça. Temos que ter disciplina para não pirar. Quando começamos a ser demandados demais, e as redes sociais fazem isso, não tem como ficarmos bem. A gente precisa de certa substância para poder viver”, ressalta o especialista.
Outro dado que chama a atenção do professor é que uma de cada cinco pessoas disse passar mais de cinco horas diárias presa nas redes sociais. Para Claudio Paixão, essa rotina, cedo ou tarde, poderá deixar sequelas físicas, emocionais ou mesmo de compreensão e aprendizado. “Cada like é um incentivo a pessoa a ficar ali. É um labirinto, e, nessa brincadeira, há o impacto de absorver sua vida. Problemas de coluna, pescoço curvado, lesão por esforço repetitivo, estresse e ansiedade… Os impactos são inevitáveis. E, se o uso das redes acontecer de uma forma tóxica e rodeada de fake news, o universo de desinformação começa a emburrecer as pessoas”, ele pondera.
USO TAMBÉM GERA EXCESSOS E DEPENDÊNCIA
Quando viu que 61,9% dos entrevistados afirmaram que o uso das redes sociais aumentou na pandemia, a jornalista e psicanalista Cinthia Demaria se surpreendeu, pois achou que o índice seria até maior que o apresentado na pesquisa DATATEMPO. “Talvez as pessoas nem tenham dimensão de que realmente passaram a usar mais ou entendam a internet como um lugar só de lazer”, pondera Cinthia.
Para ela, todos nós, em alguma medida, já somos dependentes da internet, das redes sociais e das ferramentas tecnológicas de informação e entretenimento. Por outro lado, a psicanalista ressalta que tem visto as pessoas mais preocupadas em policiar seus hábitos digitais.
Mestranda de Estudos Psicanalíticos do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFMG, Cinthia tem como objeto de estudo um dos primeiros casos de suicídio transmitido pela internet no Brasil e o suicídio de adolescentes pela tela à luz da teoria da clínica do excesso. “Minha pesquisa parte justamente desse excesso contemporâneo, que responde a uma lógica capitalista no sentido de uma produção que não pode faltar. A tecnologia tem esse papel de não deixar faltar nada, e as telas têm esse caráter irresistível”, ela sublinha. “Viciados todos estamos um pouco, é uma característica da nossa época, mas há também os casos de adições de sujeitos que são dependentes de forma patológica”, acrescenta.
Sobre as consequências e sintomas desse processo, Cinthia Demaria elenca algumas possibilidades para além de problemas físicos, como um constante sentimento de infelicidade ou angústia, a dificuldade de criar laços sociais ou até a bulimia, a anorexia e o suicídio. “Com o excesso das redes na pandemia, ouvi pessoas muito mais angustiadas por acompanharem o Instagram do que antes. É um sentimento de ‘não sou feliz o suficiente’”, explica.
Segundo a pesquisadora, na psicanálise há o que se chama de “gozo autístico”, quando o sujeito acredita se bastar consigo mesmo e prescinde do outro. No entanto, isso acaba criando um universo solitário e com extremas barreiras para as relações sociais, mesmo que a internet possa dar algum verniz de diálogo com o mundo real.
“Se não conseguimos estabelecer laços, não conseguimos trabalhar, ter lazer. Sem perda, com essa insistência de tamponar todas as faltas, também não há laços, e estar com o outro é saber lidar com isso. O que produzimos são sintomas contemporâneos que partem dessa recusa ao outro”.
MINI ENTREVISTA
Audrey Dias
Doutora em ciência política e analista do DATATEMPO
Sobre os hábitos dos mineiros na internet e nas redes sociais, o que mais te chamou atenção nos dados apresentados pela pesquisa e por quê? A pesquisa traz alguns insights interessantes. Em primeiro lugar, os dados reforçam uma preferência clara pelo uso de mídias mais tradicionais – como televisão, jornais e rádio – para se informar sobre política. Quarenta e quatro por cento preferem utilizar esses meios, enquanto apenas 33% utilizam as redes sociais para se informar. Ou seja, apesar do uso massivo das redes, o mineiro continua depositando maior confiança nos meios de comunicação tradicionais para se informar sobre política. Outro dado relevante encontrado na pesquisa do DATATEMPO é que mais de 62% confirmam que aumentaram o uso das redes sociais na pandemia.
Há diferenças importantes entre as regiões mineiras, faixas etárias e níveis sociais ou os dados seguem um padrão? De modo geral, os dados sociodemográficos seguem padrão similar em termos de o principal meio de informação política continuarem a ser as mídias tradicionais – como noticiários em TV ou jornais. Também encontramos padrões similares do uso da internet, com exceção dos mais jovens (de 16 a 24 anos), que, além de manter contato com amigos e familiares (conforme todas as outras faixas de idade), seu uso é direcionado ao estudo. Nosso dado também indica que, quanto menor a idade do indivíduo, maior o tempo gasto nas redes sociais: cerca de 41,8% dos jovens na faixa de 16 a 24 anos afirmam que passam mais de cinco horas em redes sociais. Em outro extremo estão os mais velhos: cerca de 54,2% afirmam que passam menos de uma hora nas redes sociais.
Numa pesquisa como essa, as pessoas tendem a se sentir intimidadas para falar sobre seus comportamentos ou escancaram e assumem suas atitudes sem medo de julgamentos? Depende do tipo de questão. Vou dar um exemplo: em perguntas diretas como “Se os candidatos fossem Lula e Bolsonaro, em quem você votaria?”, as pessoas tendem a responder aquilo em que acreditam mais facilmente. Mas há perguntas que buscam medir conhecimento ou atitudes a temas mais sensíveis, de forma que elas podem se sentir constrangidas a responder ou responder algo diferente do que acreditam. Um exemplo: quando perguntamos recentemente se as pessoas continuam usando máscaras e álcool em gel, nesse tipo de pergunta notamos um viés de resposta “socialmente desejável”, ou seja, talvez por medo de julgamentos, é dada uma resposta para não desagradar ao interlocutor.
Fonte: por Por BRUNO MATEUS – O Tempo